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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

CARACTERISTICA DA ESCRITA E DA LEITURA - ALFABÉTICO



NÍVEL ALFABÉTICO

A hipótese silábico-alfabética também não satisfaz completamente a criança, e ela prossegue sua pesquisa em busca de uma solução mais completa que só será alcançada, através da constituição alfabética de sílabas.
O aluno começa a escrever alfabeticamente algumas sílabas e, outras permanecem escrevendo na hipótese silábica. São escritas silábico-alfabéticas, mas já fazem parte do nível alfabético, mesmo se tratando do uso de dois tipos de concepção.
O nível alfabético se caracteriza pelo reconhecimento do som da letra.
Entretanto, a criança ainda não consegue, nesse nível, a solução de todos os problemas no que se refere à leitura e escrita, entre eles:

 Primeiro problema que a criança enfrenta se refere aos tipos de sílabas. As crianças, de modo geral, generalizam que todas as sílabas têm sempre duas letras (isso se dá pela freqüência de sílaba com duas letras na nossa escrita) e dificilmente concluem, automaticamente, que existem silabas de uma, duas, três, quatro ou cinco letras. Devido à freqüência de sílabas constituídas de consoante e vogal, os alunos acreditam que todas as sílabas são assim. Quando deparam com palavras ou sílabas iniciadas por vogais, fazem a inversão na escrita e também na leitura. Exemplo:

ARVORE = RAVORE.

 Segundo problema que as crianças vivenciam é a separação das palavras na produção de textos. Durante a escrita de textos espontâneos, as crianças ora emendam palavras, ora dividem palavras em duas ou três partes. Isso acontece porque, quando a criança escreve, concentra-se na sílaba; assim, as palavras tendem a desaparecer como um todo. Aparecem as primeiras junturas (quando escreve a criança várias palavras emendadas) e segmentações (quando escreve separando, indevidamente, as palavras), muito comuns nas escritas dos alunos ao ingressarem no nível alfabético, e que, nesse nível, serão trabalhadas visando, desde já, a construção da base ortográfica.
 Terceiro problema refere-se à ênfase sobre a escrita fonética. A criança, ao dar ênfase à escrita fonética, ou seja, a adequação fonética do escrito ao sonoro enfrenta as questões ortográficas. Descobre que uma mesma letra pode ter som de outras letras, como, por exemplo, X com som de CH, S com som de z etc., chegando a constatar que isso acontece em muitas palavras. Exemplo: chave, chaveiro, chácara, xícara, xale, Elisabete, roseira etc.

 Por último, a criança enfrenta dificuldades na escrita e na leitura de sílabas complexas. A compreensão de grupos consonantais é fruto de muito esforço lógico de raciocínio e não de memorização ou fixação mecânica.
A aquisição da base ortográfica envolve a inter-relação de componentes lógicos, perceptivos, motores, afetivos, sociais e culturais na aprendizagem.
O nível alfabético constitui o final da evolução construtiva do aprendizado da leitura e da escrita. Uma aprendizagem marcada pela reelaboração pessoal do aluno e da reflexão lógica.

CARACTERÍSTICAS DA ESCRITA E DA LEITURA

·                      Reconhecimento pela criança dos sons das letras.
·                      A criança consegue estabelecer uma vinculação mais coerente entre leitura e escrita.
·                      A criança concentra-se na sílaba para escrever.
·                      Surge a adequação do escrito ao sonoro.
·                      A criança escreve do jeito que fala (presença da oralidade na escrita).
·                      A criança compreende que cada um dos caracteres da escrita (letras) corresponde a valores sonoros menores que a silaba.
·                      Leitura sem imagem e com imagem.
·                      Surgem os problemas relativos à ortografia.

TRABALHANDO COM LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS

Algumas crianças chegam ao nível alfabético apresentando dificuldades, tais como:
1.           alunos que lêem alfabeticamente e ainda produzem escritas silábicas;
2.            alunos que já escrevem quase alfabeticamente e não decodificam um texto convencional.

Isso acontece porque a leitura e a escrita não foram desenvolvidas, até então, de forma correlacionada durante o processo de aprendizagem.

O professor atento a essas dificuldades, que são normais no nível alfabético, propiciará aos alunos oportunidades para vincular as ações de ler e de escrever. A possibilidade de exercê-las num mesmo contexto auxilia o domínio de ambas.

A prática de produção de textos é uma atividade essencial ao longo de todo o processo de alfabetização. No nível alfabético, a criança já é capaz de escrever sozinho o seu próprio texto.

A produção de textos é uma atividade expressiva e criativa que envolve reflexão constante, uma reflexão lógica.
Essa reflexão é de suma importância em todas as ações inteligentes para decidir como se escrevem palavras cuja escrita não está memorizada.

A leitura de textos, por sua vez, envolve a seleção pelo professor dos tipos de textos que serão oferecidos aos alunos de primeira série ou pré-escolar, já alfabéticos, tendo em vista oferecer experiências múltiplas, concretas e reais com o verdadeiro uso da coisa escrita na vida de alguém.

A produção de textos pode ser individual ou coletiva. O importante é que a criança de primeiro ano do primeiro ciclo do Ensino Fundamental ou pré-escolar leia e escreva muito, e que todas as suas produções sejam muito valorizadas pelo professor e outros.

Cada criança escreve do seu jeito e não há "certo" ou "errado" neste momento. O texto produzido pelo aluno é como um desenho ou qualquer outra forma de manifestação expressiva. Não cabe, absolutamente, qualquer forma de correção ou de modificação.

Esses textos são um indicador valioso sobre o andamento do processo de aprendizagem dos alunos. Eles fornecem dados que poderão ser utilizados em outras atividades de escrita.

É preciso que, em alguns momentos, o professor se torne o escriba da turma, porque é indispensável para o aluno poder perceber atos de escrita de pessoas alfabetizadas, sejam na escrita de textos, palavras ou letras. Isso possibilita ao aluno a análise de aspectos espaciais e motores envolvidos, bem como a direção que se segue ao escrever (da esquerda para a direita), os tipos de sinais gráficos utilizados (letras, sinais de pontuação), tipos de letras e suas modalidades, a ortografia das palavras, como também observar que se escrevem tudo (e não só os substantivos). É importante que o professor leia o texto escrito para as crianças, apontando, com uma régua, o que está lendo.

Os textos são trabalhados em sala de aula para serem analisados nos dias subseqüentes à sua produção. Nesse sentido, devem ser expostos na parede, para visualização dos alunos. Poderão ser transcritos para os alunos, que os utilizarão em inúmeras atividades e explorações didáticas.

SUGESTÕES DE ATIVIDADES PARA O TRABALHO COM TEXTOS

Uma mesma atividade pode ser trabalhada com crianças em vários níveis no processo de aquisição da escrita e da leitura, contanto que ela englobe um espaço amplo de problemas e que o professor provoque, diferentemente, com questões e desafios adaptados aos alunos em situações desiguais, reconhecendo e valorizando as suas respostas e comportamentos frente ao que foi proposto.

Assim, as atividades aqui sugeridas podem atender também a outros níveis, que não apenas ao alfabético; o que muda é o foco de interesse didático.
·                      Produção de texto a partir do desenho do aluno.
·                      Exploração dos textos individuais com toda a classe.
·                      Sugerir a escrita de textos a partir de outros textos já conhecidos pelos alunos: letras de música, poesias, histórias memorizadas, descrição de brincadeiras, regras de jogos etc. (também podem ser utilizados para leitura e análise).
·                      Produção de textos coletivos sobre acontecimentos ou interesses dos alunos naquele momento.

·                      Atividades a partir de um texto:

1.            leituras globais ou parciais;
2.            reconhecimento de palavras, frases ou letras no texto;
3.            análise de palavras do texto quanto ao número de sílabas e de letras, quanto à letra inicial ou final etc.;
4.            ditado de palavras e frases relativas ao texto trabalhado;
5.            copiar palavras do texto com uma, duas, três sílabas etc.;
6.            remontagem do texto com fichas de frases ou palavras;
7.           produção de um desenho para ilustrar o texto;
8.            separar frases em palavras;
9.            completar com palavras
10.         escolher palavras do texto e elaborar pequenas frases;
11.         ditar palavras do texto para um colega e vice-versa;
12.         registrar, à frente das frases, o número de palavras que a compõem;
13.         montar frases com fichas das palavras do texto;
14.         produções de histórias em quadrinhos.
·                      leitura e narração de histórias pelo professor.

O TRABALHO COM SÍLABAS

A criança começa a construção da sílaba desde o nível silábico, quando percebe que não pode ler o que foi escrito por ela. Prossegue no nível silábico-alfabético quando acrescenta letras nos seus escritos sem resolver o problema, que só vai ser superado com a escrita alfabética no nível alfabético.

A introdução sistemática das famílias silábicas não é o modo mais indicado para ajudar alunos alfabéticos a evoluir em suas concepções sobre a escrita. E muito mais indicado encorajá-los a refletir sobre a pronúncia para pensar a escrita. A percepção auditiva entra como matéria-prima em todo o trabalho de inteligência, e o fato de nossa língua não ser inteiramente fonética implica, subsidiariamente, uma elaboração mental dos elementos ouvidos para chegar à escrita.

Nesta proposta didática, sugere-se desenvolver um trabalho com sílabas começando pela sua identificação parcial, pelo desmembramento das palavras em todas as suas sílabas e pela montagem de palavras por meio de sílabas, só chegando às famílias silábicas através das descobertas dos próprios alunos.
O professor deve permitir ao aluno explorar ao máximo o mundo das palavras, das frases, dos textos e das letras, incentivando-o a extrair o máximo de conhecimentos por conta própria, e só entrar com a sistematização clássica se for necessário, e da forma mais construtiva possível, sem nenhuma ordenação de dificuldades.

SUGESTÕES DE ATIVIDADES PARA O TRABALHO COM SÍLABAS

No trabalho com sílabas é preciso levar em conta as condições cognitivas das crianças, que concernem a:

·    1                  distinção de uma só sílaba na palavra escrita;
·  2                    distinção estável de todas as sílabas das palavras (classificar palavras de acordo com o número de sílabas);
·    3                  possibilidade de considerar sílabas independentemente da sua inserção em palavras concretas;
·     4                 condições para classificar sílabas de acordo com o número de letras que a constituem, letra inicial ou final da sílaba etc.
5-As atividades propostas devem envolver palavras de um universo semântico vinculado ao interesse dos alunos: nomes de animais, partes do corpo, personagens de histórias, novelas e outros, ou de palavras que surgem na sala de aula.
·                  6    Atividades para completar a primeira ou a última sílaba dos nomes ou palavras com material concreto (fichas, jogos).
·       7               Ligar nomes às sílabas iniciais.
·    8                  Jogos: mico preto, bingo, memória, dominó (com palavras ou nomes e silabas iniciais ou finais).
·        9              Fazer correspondências de todas as silabas de uma palavra com a palavra correspondente.
·          10            Completar fichas de palavras com as letras que faltam (usando o alfabeto móvel).
·       11               Classificação de palavras com o mesmo número de sílabas.
·            12        Constituição de palavras com sílabas e alfabetos móveis.
·           13         Separação de palavras em sílabas (com fichas para recortar e colar ou por escrito).
·      14              Separação e registro do número de silabas das palavras da frase.
Exemplo:
PEDRO ESTÁ DOENTE
    (   )       (   )        (   )
·        15           Escrita de palavras e nomes que iniciam ou terminam com uma determinada sílaba.
·       16             Adivinhações de palavras através de pistas do professor.

O TRABALHO COM LETRAS

Desde o início da psicogênese, as crianças têm contato com letras, palavras, frases e textos e também de alguma forma com as sílabas (ao menos oralmente).
É de muita importância trabalhar simultaneamente as letras, sílabas, palavras e textos em todos os níveis. Apenas para fins didáticos, separamos as sugestões de atividades por unidades lingüísticas.
O trabalho com letras é feito desde o início da escolarização através dos níveis pelos quais a criança passa. Esse trabalho é também indispensável no nível alfabético (mesmo com crianças já alfabéticas, isto é, que lêem e escrevem alfabeticamente).

SUGESTÕES DE ATIVIDADES PARA O TRABALHO COM LETRAS

·                      Alfabetos variados (tamanho, forma de letra, material) para montagem de palavras ou frases mediante desafios interessantes do professor.
·                      Num monte de letras, solicitar à criança que encontre todas as letras de seu nome. Separar as letras dos nomes dos colegas do grupo.
·                      Reescrever as palavras do álbum ou dicionário já montados nos níveis anteriores.
·                      Construir dados de letras (4 dados com as 26 letras do nosso alfabeto).
·                      Jogos industrializados ou criados pelos alunos e professor (inclusive de ordem ortográfica).
Extraído: Fonte escola ativa, Fundescola

"O conflito nasce quando o professor não ensina"


Bernard Charlot: "O conflito nasce quando o professor não ensina"

Pesquisador francês afirma que, quando faltam reflexão no saber e prazer e aventura em classe, a escola perde o sentido original

Cristiane Marangon (novaescola@atleitor.com.br)Roberta Bencini

Bernard Charlot. Foto: Magdalena Gutierrez
Bernard Charlot
"Há duas línguas diferentes sendo faladas na escola: a dos professores e a dos alunos." Para Bernard Charlot, professor de Ciências da Educação da Universidade de Paris 8 e da pós-graduação da Universidade Federal de Sergipe, essa tensão existe porque os dois lados desconhecem o prazer do saber. Sem dramatizar os conflitos nem apresentar vítimas e culpados - o que seria muito simplório para uma questão tão profunda -, o pesquisador passou quase 20 anos estudando, principalmente em escolas da periferia da França, a relação que as pessoas estabelecem com o conhecimento. Os jovens gostam de aprender? O que determina o interesse pelos estudos? Seu objetivo principal é descobrir por que alguns adolescentes pobres não avançam na Educação formal, enquanto outros se revelam bem-sucedidos. Grande parte dos trabalhos foi realizada pelo grupo de pesquisa Escol (Educação, Socialização e Coletividades Locais) na Universidade de Paris 8 desde 1987. Um dos pontos de destaque é a semelhança entre os educadores brasileiros e franceses. A hipótese é que existem situações, como as de ensino, que são universais. Hoje, Charlot acompanha de perto a realidade das escolas brasileiras, principalmente as do Nordeste. Aos 62 anos, vive em Aracaju, casado com uma professora brasileira. A seguir, os principais trechos da entrevista realizada em São Paulo.

Por que a relação entre alunos e professores é tão difícil?
BERNARD CHARLOT  Para os alunos, há uma lógica no ato de estudar e, para os professores, há outra. Ouço muito das crianças: "Fui a todas as aulas, estudei em casa e não concordo com as notas que recebi". O professor retruca, afirmando que o estudante é preguiçoso e não entendeu a matéria. Esse descompasso revela o grande abismo que existe entre as pessoas e interfere no processo de aprendizagem.

Quem está com a razão, os professores ou os alunos?

Charlot O objetivo de minhas pesquisas não é encontrar vítimas e vilões. Os dois lados têm suas razões. E digo isso com sinceridade. Qual a trajetória de alunos e professores na construção do saber? Isso sim é importante e explica o ponto de vista de cada um. Estudar a ótica do outro é a primeira lição que alunos e professores precisam aprender. Mesmo assim, o diálogo verdadeiro ainda é muito difícil.

Qual é o sentido da escola para os alunos?
Charlot As crianças francesas acham que, como seus pais, que ganham por hora de trabalho, deveriam ser recompensadas pela quantidade de tempo passado em frente dos livros. Ou seja, as notas deveriam ser proporcionais ao estudo. Mas, é óbvio, essa não é a lógica da escola. A instituição escolar defende que, se o estudante não fez as tarefas, não leu nem adquiriu um saber intelectual, ele pode ser reprovado. Para esse aluno, isso é uma injustiça, algo ilógico. A maioria dos estudantes gosta de ir à escola para comer, namorar e brincar. Nunca ouço que é um lugar para aprender. Para eles, os estudos, os trabalhos e as pesquisas existem para atender apenas aos interesses da escola. Assim, professores pensam que ensinam e alunos pensam que estudam.

Como fazer os alunos estudarem e os professores ensinarem de fato?
Charlot Há milhares de motivos pelos quais os jovens imaginam que a escola é o lugar do lazer e não do saber. É importante descobri-los, mais do que criticar. Os conflitos nascem quando o professor explica algo que não é compreendido. Ainda tranqüilo, e com outras palavras, ele explica de novo, e outra vez sem sucesso. Rapidamente, ele vai considerar o estudante um incapaz. O educador culpa o aluno, mas se sente fracassado também porque a turma não avança. O jovem, por seu lado, pensa que o professor não sabe ensinar. O clima fica tenso e uma coisa sem importância vira estopim para uma agressão verbal ou física.

O professor não age dessa forma porque está sobrecarregado de tarefas?
Charlot
 Ser professor hoje em dia é uma missão quase impossível. É preciso ter jogo de cintura para enfrentar as diversas contradições. O aluno vai à escola sem ter recebido uma socialização prévia. No passado, quando apenas uma pequena parte da população tinha acesso à Educação formal, não havia esse problema. Os pais preparavam os filhos para essa etapa da vida e os irmãos mais velhos, que também freqüentavam a escola, ajudavam os mais novos. Porém, quando toda a população passa a estudar, você se vê diante de crianças que não foram preparadas para as situações de aprendizagem. A dificuldade atual da escola é conseqüência da democratização. E quem há de reclamar disso?

Por que tantos professores criam imagem de um aluno ideal?

Charlot Essa questão é muito complicada. O professor espera encontrar em sala de aula um clone ideal dele mesmo, ou seja, uma pessoa que ele gostaria de ser: crítico, reflexivo, leitor e dedicado. Mas o professor também deseja alunos obedientes. E essa contradição é insolúvel. Como ser, ao mesmo tempo, obediente, crítico e inquieto com a realidade? Na verdade, os critérios estão quase sempre baseados no comportamento: muitos acreditam que o bom aluno é aquele que não atrapalha o andamento da aula, chega na hora certa, levanta a mão para fazer perguntas inteligentes e conta com o interesse dos pais pelos estudos.

E os alunos, o que esperam dos professores?
Charlot Uma vez ouvi esta frase: "Gosto muito do meu professor porque ele nos trata como seres humanos". Ilude-se quem pensa que os meninos e as meninas esperam um amigo ou um colaborador mais velhos. Os jovens querem se relacionar com um profissional maduro. Outro ponto importante: eles não querem ser números. Não há nada pior para uma criança ou um adolescente do que encontrar seu professor na rua e não ser reconhecido. Os jovens não agüentam ser tratados como anônimos. Isso confirma uma das principais competências que se espera de um profissional da Educação - a capacidade de se relacionar. E acrescento: com humor, que é o melhor remédio para enfrentar as contradições do universo da Educação.

Sempre houve conflito entre quem ensina e quem aprende?
Charlot Sim, porque existe uma tensão que faz parte do ato pedagógico. O primeiro problema que o docente enfrenta é não produzir diretamente seu trabalho. Explico: o que faz o aluno aprender é sua própria atividade intelectual, não a do mestre. O trabalho do educador é despertar e promover essa atividade. É assim, sempre foi e sempre será, em qualquer sociedade e época. Se o estudante fracassa, a culpa é do professor, por mais que ele não tenha o poder de enfiar o saber dentro da cabeça do jovem. Essa tensão se converte facilmente em conflito quando o aluno se sente pressionado ou enganado. Mas os conflitos nem sempre são negativos. Penso que é uma sorte viver tantas contradições. Para ser feliz é preciso renunciar a uma idéia enganosa de felicidade. O humor, a reflexão e o prazer são imprescindíveis para aceitar as diferenças e é isso que permite avançar. Já imaginou uma escola sem conflitos? Seria muito monótona.

Qual é o maior problema no dia a dia escolar?
Charlot A avaliação é campeã de dúvidas, discórdias e desatinos. Precisamos refletir mais sobre o assunto. O modelo baseado em assinalar uma alternativa, em certo ou errado, em verdadeiro ou falso, não mede a atividade intelectual. Essa história começou quando o Brasil passou a selecionar alunos para o curso de Medicina, como nos Estados Unidos. Os saberes científicos podem ser medidos em falsos e verdadeiros, mas não os conteúdos de Filosofia, Língua Portuguesa, Pedagogia e História. É um absurdo o que se vê aqui. Até na Educação Infantil já se encontram vestibularzinhos. Esse erro a França não comete. É verdadeiro que o Sol se põe no oeste? Sob um ponto de vista, sim. Sob outro, não, já que o Sol não sai do lugar. O mundo do verdadeiro ou falso é do fanatismo e não da cidadania. Nega a reflexão e o saber e impede que os alunos leiam, escrevam e aprendam.

A relação do jovem pobre e do rico com a escola é a mesma?
Charlot Uma pesquisa feita na França com estudantes do Ensino Médio mostrou que eles usam o que foi aprendido na escola para pensar e construir novos saberes. Eles conseguem fazer essa transposição. Não há relação direta entre fracasso escolar e classe social. Apesar de, em termos estatísticos, existir uma probabilidade maior de alguém de classe popular fracassar nos estudos, muitos são bem-sucedidos. Mas também há uma grande quantidade de filhos da classe média que são reprovados. Minhas pesquisas têm por objetivo entender o que acontece especificamente com os que enfrentam dificuldades. Se o pai é imigrante, está desempregado ou ausente, não importa para a análise, mas sim o que a criança faz dessas condições. Para isso, precisamos saber se ela estuda e, principalmente, por que estuda - ou seja, que sentido tem a escola para ela. Esse aspecto é interessante e inusitado.

Que motivos levam uma criança pobre a querer estudar?
Charlot A maioria dos alunos acredita desempenhar seu papel em ir à escola todos os dias, não fazer muitas bobagens e escutar o professor. Enfim, cumprir um protocolo. Eles vão à escola para passar de ano até conseguir um trabalho, dinheiro e uma vida considerada normal - e não necessariamente para construir capacidades. A primeira lição que aprendem é obedecer. E aí se vê um pacto silencioso de cumplicidade com os professores: "Você obedece e não atrapalha minhas aulas. Em contrapartida eu só passo lições e provas fáceis". Para outros jovens, o estudo é uma conquista permanente que exige muita força de vontade, esforço e dedicação. No geral, pobres e ricos apresentam as mesmas características. Nos dois lados, encontramos o tipo que não sabe o que está fazendo no colégio.

É papel da escola garantir o sucesso profissional dos alunos no futuro?
Charlot Eu estou convencido de que não, apesar de essa ser uma questão muito presente hoje. Quando perguntamos a alguém por que ir à escola, a resposta imediata é "obter um emprego". Muitos se esquecem de que não é a escola que garante o emprego. Ela tem outro papel, bem mais amplo e importante. Para conseguir uma boa colocação no mercado de trabalho, é preciso adquirir saberes, desenvolver a imaginação, construir referências para entender o que é a vida, o que é o mundo e o que é a convivência com os outros. Há uma grande perda de tempo e energia quando isso não acontece. Todos se sentem lesados, e não poderia ser diferente.

Quando não garante esse sucesso no mercado de trabalho, a escola acaba por punir os mais pobres.
Charlot Quando a Educação se preocupa demais com o mercado de trabalho, ela exclui os mais pobres. A escola e o saber ainda são a grande chance de ascensão social para muitos e estão se tornando uma maldição para os jovens mais fracos e mais desfavorecidos economicamente. Quem não tem um diploma não consegue emprego, certo? O mesmo vale na França, no Brasil e em qualquer lugar do mundo. A escola ideal é aquela que faz sentido para todos e na qual o saber é fonte de prazer. Isso não quer dizer que dispense esforço. O esportista, para ter satisfação, se empenha muito. Ainda hoje, um grande número de professores pensa que sua função é dar respostas, mas elas não significam nada se não houve um questionamento anterior. Os estudantes estão decorando coisas que nem sequer entendem. O trabalho do professor é fazer nascer novas questões e o interesse pela escola. Caso contrário, ele gasta o ano letivo em embates sem solução.

Como seria uma escola com a cara do jovem?
Charlot 
O jovem não quer uma escola com a cara dele, mas uma que faça a ponte entre a história coletiva do ser humano e sua história individual. Uma escola com a cara do jovem teria a cara da Xuxa. Urgh!

Como ajudar os alunos a melhorar sua escrita



Por: Fatima Calado
Poucas aptidões são mais importantes para uma criança de sucesso dentro e fora de sala de aula do que escrever. Aqui estão apenas algumas das muitas coisas que aprendi ensinando e trabalhando com outros professores (e alunos!) sobre como ajudar a melhorar a escrita dos estudantes.
Ensinar habilidades de escrita não é somente atividades de papel e caneta. Começar o processo de como ajudar os estudantes a melhorar suas habilidades escritas significa ensinar as crianças a serem positivas.
•    Cultivar atitudes positivas. Muitas vezes, as crianças que não são boas em escrever são dolorosamente conscientes desta realidade. Eles dizem coisas como "Sou horrível na escrita" ou "Nunca serei um bom escritor" ou "Eu odeio escrever". Qualquer professor sabe que é quase impossível se ensinar uma criança com esse tipo de estima quanto a sua habilidade em um assunto. A primeira coisa que eu sugiro a quem quer que seja ajudar a estimular um aluno para a escrita é se livrar de todas as negativas de auto-avaliação. Relembre o estudante que ninguém nasce sendo capaz de escrever, e muito menos capazes de escrever bem. Qualquer pessoa que é um bom escritor teve que trabalhar duro para conseguir isso - e os estudantes podem fazer o mesmo. 

Escrever é uma habilidade a ser refinada, e não algo que você tem ou não "tem". Eu tinha o hábito de começar todas as minhas aulas de Português com a lembrança de que "a escrita é poder". Boa escrita pode fazer qualquer coisa, desde iniciar uma guerra até conseguir um emprego. Vale à pena fazer um esforço para melhorar - você ganha poder em retorno! Além disso, lembre o seu aluno que ele ou ela têm coisas que valem a pena ser ditas e aquelas idéias merecem ser bem expressas no papel. Depois que eles começarem a entender a idéia de que ser um bom escritor é importante, os alunos irão ter a mente mais aberta sobre tentar melhorar.

Escrever bem pode ter impacto na sua vida. Não ligue a escrita com a punição. Foi-me dito uma vez por um professor mais velho, e eu concordo, que, se você der tarefas de escrita às crianças como castigo ( 'Escreva 100 palavras sobre o motivo pelo qual você deve ficar quieto na sala de aula ...") que você está dizendo "Escrever não é divertido, é algo que você tem que fazer quando você é mau." Agora, isso certamente NÃO É, a atitude que deseja que as suas crianças tenham. Então, pergunte às crianças, até mesmo no seu primeiro dia, o que eles pensam da escrita. Veja o que está dentro das cabeças deles, o que é que está impedindo-os e, em seguida, tente eliminar suas idéias negativas sobre a escrita.

•    Promover a prática. Isso vai junto com a referida idéia de que a escrita é uma habilidade que tem que ser refinada. A única maneira de fazer com que as crianças escrevam melhor é fazê-las escrever... e escrever, e escrever... e, então, escrever um pouco mais. Muitas vezes, nós evitamos coisas que não gostamos ou não fazemos bem. Mas ninguém nunca vai melhorar com essa atitude! Configure maneiras para que os seus alunos escrevam um pouco todos os dias: questões guiadas de revistas para tarefas de leitura, um curto resumo do dia de aula, respostas para perguntas da lousa, recapitulações dos acontecimentos atuais. Faça-os escrever. E quando eles escrevem, faça com que eles tenham em mente um determinado elemento que eles podem precisar trabalhar: uso de pronome, digamos, ou pontuação, ou evitar fragmentos. Dessa forma eles estão realizando dois objetivos: praticando a escrita em geral, e praticando uma área específica em que eles precisam para melhorar.

E quanto à escrita livre de diários? Eu não sou um grande fã da escrita livre de diários para alunos do ensino fundamental e do ensino médio. Acho que dizer às crianças para escrever o que eles querem, expressar-se, e se divertir com isso – ou algo do tipo! - envia uma mensagem contraditória. E, como escritor eu mesmo, eu nunca achei que um diário de reflexão pessoal foi uma parte consistente da minha vida de escritor. No entanto, se você tiver um aluno que gosta deste tipo de coisa - faça!

•   
Enfatizar a utilidade da pré-escrita. A maioria dos professores acredita que a chave para ter uma boa escrita está em ter uma boa pré-escrita: a capacidade de descobrir as peças do quebra-cabeça antes de colocá-las no papel. Muitas crianças (e muitos adultos) muitas vezes crêem no contrário. Para eles, é mais fácil, mais rápido e, portanto, "melhor" apenas escrever, no embalo. Devido a isto, eles produzem muitas vezes um trabalho ilógico, desorganizado e mal estruturado. Com crianças em idade de escrever no papel, a desorganização pode muitas vezes ser um problema maior do que mau vocabulário ou gramática. E, muitas vezes, os estudantes escritores não reconhecerem o problema é uma falta de preparação; pois eles só acham que não conseguem escrever. Ensinar uma boa pré-escrita é essencial se você quiser ajudar uma criança se tornar um escritor melhor. Ajude as crianças a verem que "pré-escrever só torna tudo mais fácil!"

Uma maneira passar essa mensagem: dê-lhes uma tarefa de escrever baseado em um monte de informações atrapalhadas, então faça com que eles escrevam um outro a partir de um esboço claro e detalhado. O que é mais fácil?

Outra maneira de melhorar a prática na pré-escrita é criar tarefas que exigem apenas uma etapa de pré-escrita - brainstorming, delineando, escrevendo tópicos ou introduções, etc. Nenhum "rascunho final" é necessário. Mas mantênha-os honestos - não deixá-os entregar um trabalho de pré-escrita feito pela metade. E ainda, certifique-se de que a pré-escrita é uma ferramenta que torna as coisas mais fáceis - e não um fim a si própria. Nós professores precisamos ter a certeza de não enfatizar minúcias e regras (qual numeral romano usar, não usar um 'a' se você não tiver um 'b'...) ensinar exageradamente às crianças sobre COMO pré-escrever para cumprir a sua missão: ajudar a completar o projeto de escritor! Claro, as crianças devem aprender a fazer contornos formais, mas, se a tarefa torna-se mais sobre a forma correta do que criar algo que funciona, há um espaço para revisão nessa tarefa.

•   
Dê exemplos e rubricas aos estudantes. Os professores que sabem ensinar a escrever sabem que uma maneira de fazer com que as crianças melhorem a detê-las a padrões elevados. Se uma criança é um "mau" escritor, as chances são, que ele ou ela nem sequer saibam o que é uma "boa" escrita. É aí que, naturalmente, a leitura aparece.

Um bom exemplo de um gênero de escrita que o aluno pode estar prestes a enfrentar pode ser uma enorme ajuda. Ele diz: "Veja o que fazer." Também proporciona aos estudantes uma lista das características que deveriam tentar incluir, em cada peça que escrevem. A lista poderia ser acumulada à medida que o ano passa e com noções básicas sobre como "Usar somente frases completas" e mover até especificidades como "Não terminar frases com preposições." Se os alunos sabem o que fazer - e não fazer - antes de escreverem, dá a eles o poder de auto editar a medida que escrevem. E manter-se sempre verificando é uma ótima maneira de reter as informações.

•    Encoraje a revisão e mostre o seu retorno. Aprender a melhorar as habilidades de escrita significa entender que escrever é re-escrever! Crianças podem não gostar de ter que escrever algo de novo, mas a revisão é uma grande ferramenta para ajudar os jovens a aprender com os erros. Polir um segundo rascunho também pode ser muito gratificante para um aluno que pode ver até onde ele ou ela chegou com apenas uma tarefa.

Os alunos que não acho que são bons escritores também podem precisar de alguma prova de que investir no seu "sistema" vai dar os seus frutos. Um bom segundo rascunho pode servir como prova de que este trabalho árduo vai criar melhores escritores. Um portfólio escrito ao longo de um período de tempo também pode ajudar a crescer a confiança do aluno, fornecendo um exemplo de progresso a longo prazo: veja, você é um escritor melhor. Eu te disse!

Junção e separação de termos é dúvida frequente entre estudantes

Publicado em: Jornal da Unesp online em 22 de Janeiro de 2010 Erro de grafia pode ter origem na fala, diz linguista Por Cínthia Leone Junção e separação de termos é dúvida frequente entre estudantes Escrever "junto ou separado" tem sido um dilema para os estudantes de língua portuguesa no Brasil. Isso acontece porque a criança baseia a ortografia na maneira como a fala é organizada. Se há uma pausa na pronúncia, o aluno interpreta a palavra como duas partes distintas. Caso contrário, quando há aglutinação, ele escreve "tudo junto". Isso é o que aponta o resultado preliminar de pesquisa realizada pela professora Luciani Ester Tenani, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), campus de São José do Rio Preto. "Esse tipo de erro ortográfico traz a evidência de que no português do Brasil a unidade prosódica, aquela que define os acentos da fala, é formada por palavras que têm acento, isto é, uma forte entonação, e outras que não têm", afirma a linguista. As construções "concerteza", "apartir", "da quele" e "derrepente" são exemplos de como essa variação confunde durante o processo de aquisição da escrita. Os limites da palavra, que é o termo lingüístico para os espaços em branco na escrita, vão sendo assimilados aos poucos pelos alunos, que passam a dissociar as pausas da fala das separações gráficas. Além da oralidade, o estudo também aponta a influência do próprio conhecimento ortográfico já adquirido nos erros de grafia. O estudante tomaria como modelo a separação ou junção de um termo em uma determinada situação. A partir desse exemplo, ele tenta intuir a forma como uma outra palavra seria escrita. A pesquisa tem apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e se originou da realização do projeto de extensão Desenvolvimento de Oficinas de Leitura, Interpretação e Produção de Textos no Ensino Fundamental, que existe desde 2008. A atividade é voltada a alunos de 5ª a 8ª séries do ensino fundamental da Escola Estadual "Zulmira da Silva Salles", na zona sul da cidade de São José do Rio Preto. O projeto consiste em uma oficina mensal de leitura e escrita e minicursos sobre as principais dificuldades de português apresentadas pelos estudantes. Nesses encontros, os jovens produzem redações. Com base nesses textos, a professora realiza o estudo. Alunos da graduação e de pós-graudação em Letras atuam nas oficinas, que já reuniram mais de três mil manuscritos, 424 deles já analisados. Um artigo feito com base nessa amostra inicial será publicado em março, na revista Cadernos de Educação, da Universidade Federal de Pelotas (RS). Durante o II Seminário de Aquisição Fonológica, a pesquisadora confrontou os dados obtidos com informações semelhantes recolhidas de textos de jovens gaúchos. O evento foi realizado em novembro de 2009 pela Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Nos próximos dois anos, a análise das redações das crianças será aprofundada e o resultado deve dar origem a um livro. Escrevendo "certo" A perspectiva teórica fundamental do trabalho é entender que os erros apresentados pelas crianças e adolescentes não são evidências de distúrbios de aprendizagem, nem de dislexia. Para a professora, as dificuldades observadas seriam parte do percurso trilhado na descoberta de como funciona a ortografia. De acordo com a pesquisadora, no jogo de representação da escrita, ninguém fala ou escreve "errado" porque quer, mas sim porque faz hipóteses que o leva a errar. "Com a prática regular de produção de texto, as crianças deixaram de ver essa atividade como um trabalho árduo e sofrível e passaram a escrever com muito mais facilidade e entusiasmo", relata Vanessa Pavezi, que faz doutorado no Ibilce sob orientação da professora Luciani. Ela deu aulas de língua portuguesa para turmas da 6ª e 8ª séries da escola onde o projeto é realizado e faz sua pesquisa para a pós-graduação com base nas redações dos estudantes. "Durante as aulas regulares, os alunos que faziam o minicurso aproveitavam qualquer oportunidade que tinham para socializar o que haviam aprendido." Além do trabalho de Vanessa, outras quatro pesquisas relacionadas ao projeto de extensão são realizadas no câmpus de Rio Preto, três delas em nível de mestrado e uma de iniciação científica. Fonte: http://www.unesp.br/int_noticia_imgesq.php?artigo=4819